Recursos expressivos na psicoterapia: para além da fala
Entenda como recursos expressivos em psicoterapia podem ampliar a psicoterapia e conheça contribuições de Natalie Rogers e Nise da Silveira para pensar arte e cuidado.
9/14/20265 min read


Recursos expressivos na psicoterapia: quando nem toda experiência começa pela fala
Quando pensamos em psicoterapia, é comum imaginar duas pessoas sentadas conversando.
E, de fato, a palavra ocupa um lugar muito importante no processo terapêutico.
Mas nem toda experiência começa pela fala.
Às vezes, antes de conseguirmos explicar o que sentimos, conseguimos tocar nisso de outro jeito: por meio de uma imagem, de uma cor, de uma forma, de um movimento, de uma escrita ou do próprio gesto de criar.
É nesse ponto que os recursos expressivos na psicoterapia podem abrir outras possibilidades de contato com aquilo que estamos vivendo.
Quando faltam palavras
Existem experiências que conseguimos narrar com clareza.
Sabemos o que aconteceu, conseguimos identificar o que sentimos e encontramos palavras para comunicar aquilo ao outro.
Mas nem sempre é assim.
Em alguns momentos, sabemos apenas que existe um incômodo.
Uma sensação difícil de explicar.
Uma imagem que insiste em aparecer.
Uma tensão no corpo.
Uma mistura de sentimentos que parece não caber em uma resposta organizada.
Isso não significa que aquela experiência seja menos real.
Talvez ela apenas ainda não tenha encontrado uma forma verbal.
Por isso, ampliar as possibilidades de expressão dentro da psicoterapia pode ser uma maneira de se aproximar daquilo que ainda está difícil de nomear.
Natalie Rogers e as artes expressivas centradas na pessoa
Natalie Rogers foi psicoterapeuta e uma das pioneiras das artes expressivas centradas na pessoa. A partir das bases humanistas da Abordagem Centrada na Pessoa, desenvolveu o processo chamado Creative Connection, no qual diferentes formas de expressão — como movimento, som, artes visuais, escrita e imaginação guiada — podem se conectar umas às outras.
O foco não está em produzir algo bonito ou tecnicamente correto.
Também não é necessário “saber desenhar”, dançar ou ter qualquer habilidade artística.
O que importa é o processo de criação e aquilo que pode emergir dele. A própria proposta das artes expressivas centradas na pessoa enfatiza segurança psicológica, liberdade e expressão, em vez da qualidade estética do produto final.
Uma experiência pode começar em um movimento, ganhar forma em um desenho e depois encontrar palavras em uma escrita.
Não porque cada etapa precise “explicar” a anterior, mas porque diferentes linguagens podem permitir diferentes formas de contato consigo.
Criar não é necessariamente explicar
Talvez você faça um desenho e não saiba exatamente o que ele significa.
Talvez escolha uma cor sem saber por quê.
Talvez modele algo em argila e só depois perceba o que aquela forma despertou.
Isso não significa que exista uma interpretação escondida esperando para ser descoberta pela terapeuta.
Dentro de uma perspectiva centrada na pessoa, o sentido da experiência não é imposto de fora.
O interesse está muito mais em perguntar:
O que acontece em você quando olha para isso?
O que essa forma desperta?
O que você percebeu enquanto criava?
Se essa imagem pudesse falar, o que talvez dissesse?
O recurso expressivo não precisa substituir a palavra.
Ele pode ajudá-la a chegar.
Nise da Silveira e a liberdade de expressão pela imagem
No Brasil, é impossível falar sobre arte, cuidado e saúde mental sem lembrar de Nise da Silveira.
Psiquiatra, Nise se opôs a práticas psiquiátricas agressivas de sua época e, em 1946, estruturou uma Seção de Terapêutica Ocupacional no então Centro Psiquiátrico Nacional. Entre as atividades desenvolvidas estavam os ateliês de pintura e modelagem, que posteriormente deram origem ao Museu de Imagens do Inconsciente, inaugurado em 1952.
As produções dos ateliês passaram a ser acompanhadas não simplesmente como objetos artísticos, mas como formas de expressão da vida psíquica. O Museu descreve esses espaços como territórios de liberdade para a expressão de vivências internas e para a criatividade.
O contexto de Nise é muito diferente daquele das artes expressivas centradas na pessoa desenvolvidas por Natalie Rogers.
Ainda assim, existe uma aproximação que considero muito bonita entre essas histórias:
a confiança de que existe experiência onde ainda não existe explicação — e de que uma imagem, uma forma ou um gesto podem abrir caminhos de contato com essa experiência.
O processo importa mais do que o resultado
Quando usamos um recurso expressivo em psicoterapia, não estamos fazendo uma aula de arte.
Não existe uma peça “certa”.
Não existe desenho bonito ou feio.
Não existe necessidade de dominar uma técnica.
Você pode trabalhar com tinta, colagem, argila, escrita ou desenho e simplesmente observar aquilo que acontece durante o processo.
Talvez surja frustração.
Talvez seja difícil escolher.
Talvez você queira controlar cada detalhe.
Talvez exista medo de errar.
Talvez apareça prazer.
Talvez você queira desfazer tudo e começar de novo.
E tudo isso também pode fazer parte da experiência.
Às vezes, a maneira como criamos diz algo sobre a maneira como estamos naquele momento — não como um diagnóstico, mas como uma possibilidade de perceber a si mesma com mais atenção.
E se eu disser que “não sou criativa”?
Essa é uma frase muito comum.
“Eu não sei desenhar.”
“Não sou boa com essas coisas.”
“Vai ficar horrível.”
Mas o objetivo não é produzir arte para ser exposta.
É experimentar.
Observar.
Permitir que algo aconteça.
Natalie Rogers defendia justamente que não é necessário talento artístico para participar de processos de artes expressivas.
Talvez seja possível, inclusive, perceber o que acontece quando você não pode medir o resultado pela ideia de certo ou errado.
Recursos expressivos fazem parte de todas as sessões?
Não.
Na minha prática, os recursos expressivos aparecem quando fazem sentido para a pessoa e para o momento do processo.
A psicoterapia continua sendo construída a partir da relação, da escuta e da experiência de quem está ali.
Uma pessoa pode se beneficiar muito de recursos criativos.
Outra pode preferir trabalhar principalmente pela fala.
E até a mesma pessoa pode querer experimentar algo em determinada sessão e não querer em outra.
A proposta não é substituir uma linguagem por outra, mas ampliar as possibilidades de expressão.
Psicoterapia, presença e criação
Criar exige alguma forma de presença.
Observar.
Experimentar.
Escolher.
Errar.
Mudar.
Sentir.
Às vezes, aquilo que começa como uma linha numa folha, uma cor ou uma forma em argila abre uma pergunta que ainda não tinha aparecido na conversa.
Não porque a arte tenha respostas escondidas.
Mas porque ela pode oferecer uma outra maneira de se aproximar de si.
Talvez essa seja uma das coisas que mais me interessam nos recursos expressivos dentro da psicoterapia:
não usar a criação para explicar uma pessoa, mas para ampliar as formas pelas quais ela pode entrar em contato com a própria experiência.
Psicoterapia em Campinas e atendimento online
Sou Emanuele Augusta, psicóloga, e realizo psicoterapia presencial no Jardim Guanabara, em Campinas, além de atendimento psicológico online.
Meu trabalho é orientado pela Abordagem Centrada na Pessoa e, quando fizer sentido para o processo, também posso utilizar recursos expressivos e artísticos como possibilidades de contato e elaboração da experiência.
Não é necessário ter qualquer experiência ou habilidade artística.
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Emanuele Augusta Psicóloga Clínica
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